07 Dec 2006
Missão como “Gospel” (segunda parte)
No post anterior procuramos mostrar a relação entre “missão” e gospel. Observamos que gospel é a palavra em inglês para “evangelho”, que significa “boa nova” ou “anúncio notório”. No Novo Testamento, o “evangelho” ou o gospel são as boas novas que Deus ressuscitou Jesus de entre os mortos em realização das suas promessas nas Escrituras para o povo de Deus e a respeito das suas misericórdias para com as nações. Entendendo deste modo, se torna evidente que o evangelho possui três características essenciais: um caráter narrativo, promissório e histórico e que o evangelismo está no coração da missão da igreja. É narrativo porque descreve principalmente eventos, e não meramente idéias. É histórico porque estes eventos aconteceram dentro do tempo e espaço deste mundo, e não em algum plano etéreo. E é promissório porque os eventos foram não só previstos, mas são o cúmulo dum grande esquema ou plano proferido da boca de Deus e repetido ao longo da história do Israel antigo.
As implicações desta definição do gospel ou do evangelho não foram elaboradas no último posto. Entretanto não são difíceis de imaginar. Por exemplo, devido à natureza narrativa do evangelho, a evangelização não é principalmente apologética, como alguns imaginam e praticam. Não, antes é a habilidade de contar eventos da vida real, acima de tudo, acerca da vida, morte e ressurreição de Jesus, mas também incluindo a continuação de eventos na vida de quem está evangelizando. Também, por causa da natureza histórica, do evangelho, a evangelização não é principalmente mística. Não, trata-se da inserção e da preocupação de Deus com as nossas biografias, isto é, com o nosso cotidiano. Finalmente, por causa da natureza promissória do evangelho, a evangelização se realiza com a confiança de que Deus está de fato guiando a história e deve apontar para este Deus, e não para o mensageiro do evangelho, pois somente Deus é capaz de guiar o mundo e a história, inclusive as nossas vidas.
Pois bem. Conseguimos recapitular o assunto do último número da revista e avançá-lo um pouco. Agora queremos avançar mais ainda. Além destas três características essenciais do evangelismo, pode-se acrescentar um pré-requisito necessário e duas conseqüências inevitáveis.
O pré-requisito é a exigência do arrependimento e da fé (Atos 2.38; 3.19; 10.43; e 13.38-39). É necessária a disposição e a decisão de abandonar a velha maneira egoística de viver e igualmente deve-se pôr a confiança e a fé em Jesus, o Deus que salva, o nosso Senhor. Tal mudança de rumo é demonstrada inicial e publicamente pelo batismo, que nas palavras de Paulo, ilustra a morte da vida anterior e o nascimento duma nova vida em Cristo (Romanos 6.4). Assim, Deus estabelece um pacto pessoal com o convertido. Entretanto, e independentemente da perspectiva teológica sobre o batismo (de adultos somente ou também de filhos dos crentes), é importante reparar que o “pacto pessoal” não deve ser entendido dum modo individual, pois a aliança é feita dentro duma comunidade de fé na qual o salvo é inserido e com a qual ele é comprometido.
As duas conseqüências inevitáveis do evangelismo são o perdão dos pecados e o dom do Espírito Santo. Não é apenas o que Cristo realizou uma vez no passado. Mas ainda hoje, quando alguém é atingido pelo evangelho, seus pecados são lançados por Deus no fundo do mar, esquecidos e enterrados por Ele, e ainda recebe o precioso presente duma renovação completa pela entrada do Espírito Santo na sua vida (Atos 2.38). Maravilhoso Deus!
Estes são os contornos do evangelismo, sua definição essencial, seu pré-requisito necessário e suas conseqüências garantidas. Trata-se principalmente duma mensagem sobre algo que Deus realizou, não algo que nós fazemos ou decidimos. Por isso, em última análise não se pode avaliar o evangelismo nem em termos de resultados (nossos) e nem mesmo em termos de métodos (nossos). Nem sempre sabemos dos resultados. Mesmo assim o evangelismo ocorre onde o evangelho é anunciado (Atos 8.4, 25, 40) até mesmo quando a mensagem é rejeitada. O sentido bíblico de “evangelizar” não é “ganhar almas”, mas simplesmente anunciar as boas novas. Claro que desejamos resultados positivos!
original publicado em outubro de 2005 na revista, Atual Gospel
